quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

NA DISTÂNCIA EM QUE EU TE ENCONTRE



Oitavo romance escrito por Diedra Roiz. Postado de 11 de Fevereiro de 2011 a 20 de Dezembro de 2012.



PLÁGIO É CRIME! NÃO COPIE, CRIE! 

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Lembrando que... Copiar o texto e apenas trocar o nome das personagens e/ou detalhes da história não é fanfiction, muito menos adaptação, é plágio. E plágio é crime! Por favor, não façam isso, ok?





SINOPSE

Completamente diferentes em vivências, gostos, estilos, culturas, personalidades...
Maurícia e Liv têm algo em comum: uma solidão refratária.
Decepções e sofrimentos gravaram nas duas marcas profundas.
Como voltar a reabrir corpos, corações, almas?
Como unir duas vidas, sem abrir mão de uma? 
Como extinguir as infinitas distâncias que as separam?



MÚSICA QUE INSPIROU A HISTÓRIA:
 


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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

CAPÍTULO UM



Música alta, movimento enorme de pessoas rindo, falando e gesticulando numa velocidade que parecia forçadamente alegre e acelerada... Realmente não era o que precisava.
Desejou estar em casa assim que abriu a porta do carro.
Óbvio que antes mesmo de aceitar o convite de Miguel, já sabia perfeitamente o que a esperava. Recusaria, se o irmão e o cunhado não tivessem insistido até ser impossível não acompanhá-los. Única e exclusivamente por isso Maurícia estava ali.
Por outro lado, não pretendia atrapalhar a diversão deles, então... O plano era simples: ficaria um pouco e depois daria um jeitinho de se retirar.
Não fez nem disse nada. Bastou um ínfimo instante pensativa, ainda sentada no banco de trás. Não precisava mais. Com a mesma facilidade de quando eram crianças, o irmão gêmeo falou como se soubesse o que ela pensava:
- Vamos lá, Mau... Nada de ir embora correndo, faz séculos que tu não sai. Três anos enfiada naquele buraco é muito tempo, tu tá virando um bicho do mato. Relaxa e aproveita, mana! Confia em mim: não existe lugar melhor pra se divertir do que numa festa do Fábio.
A animação dele não a contagiou. Foi ainda preferindo poder estar deitada no conforto do quarto de hóspedes do irmão, que Maurícia saiu do carro.
Com a simpatia desinibida que lhe era peculiar, Leandro tentou ajudar:
- Tá gatíssima, cunhada! Vai arrasar!
A exclamação conseguiu arrancar um sorriso de Maurícia. Apesar de achar Leandro um pouco fútil, não tinha nada contra o cunhado. Muito pelo contrário. Gostava do companheiro de Miguel. Meigo, doce, carinhoso... Uma graça. Na verdade, ele e o irmão pareciam feitos um para o outro. Tinham os mesmos gostos, objetivos, valores... Maurícia sabia perfeitamente que ali era ela que não se encaixava. Optara por uma vida muito diferente. Mais introspectiva, quase solitária. Há muito deixara de achar graça em contatos efêmeros que não lhe diziam nada. Ter 40 anos lhe conferia exatamente essa vantagem: saber muito bem o que queria, desejava e do que realmente gostava. Sem o menor sofrimento seguia o ditado: antes só do que mal acompanhada. Estava bem assim, mas... Infelizmente, Miguel e Leandro pareciam não acreditar.
Seria preciso um esforço muito grande, e uma conversa profunda, complicada e filosófica demais para conseguir explicar. Não que Maurícia se achasse superior ou menosprezasse o irmão e o cunhado. Apenas conhecia-os bem. O bastante para saber que nenhum dos dois estava disposto a esse tipo de diálogo. Acreditavam piamente que qualquer tipo de vida diferente da deles era... Triste e lamentável. Assim sendo, nada mais natural do que tentarem “salvá-la”.
A grande ironia estava no fato do comportamento deles ser uma réplica exata do dos pais ao descobrirem que Miguel era homossexual. Outro assunto que definitivamente, não cabia a Maurícia trazer à baila.
Mais fácil sorrir. E não deixar que percebessem que não tinha qualquer intenção além de escapar o mais rápido possível.
Leandro sorriu de volta, empolgadíssimo ao estender o braço para Maurícia e finalmente confessar o  motivo de tanta insistência pela presença dela:
- Tenho uma amiga pra te apresentar. Ela é maravilhosa! Perfeita pra você, tenho certeza que rola.
Já de braços dados com o cunhado, Maurícia olhou para Miguel, na esperança vã de ainda poder ser salva. Mas o irmão se fez de desentendido, ou melhor: mostrou estar indiscutivelmente do outro lado:
- Pode confiar, maninha! O Leandro é o melhor casamenteiro da cidade!
Maurícia poderia ter contestado. Mas os dois pareciam tão absolutamente satisfeitos, que não foi capaz. Entrou na festa devidamente escoltada. De braços dados com o irmão gêmeo e o belíssimo cunhado. Desejando estar sozinha debaixo das próprias cobertas, sem precisar passar pelo constrangimento de ser oferecida como uma vaca velha encalhada

***

Liv estava tão concentrada no trabalho que nem ouviu o celular tocar. Só percebeu quando o aparelho se deslocou, vibrando e saltitando como uma coisa viva por cima da mesa. Pousou os óculos ao lado do notebook antes de atender:
- Alô?
Soube quem era de imediato. Pela música e pela barulheira abafando a voz dele. Não precisaria nem dizer:
- Liv? É o Fábio.
Olhou para o relógio na tela apenas para ter certeza: havia perdido a hora completamente. Sem desligar o note, nem fechar as fotos que tirara do apartamento que estava avaliando, caminhou em direção ao quarto e abriu o armário:
- Oi, Fá... Eu já...
Ele a interrompeu:
- Posso saber por que diabos você ainda não tá aqui?
Enquanto movia os cabides de um lado para o outro, tentou inutilmente se explicar:
- Eu me enrolei com...
Novamente, Fábio a cortou do outro lado:
- Só me diz uma coisa: é rolo com buceta? Se for, tá mais do que desculpada.
Liv não respondeu. Continuava tentando decidir o que vestir. Tarefa árdua. Todas as roupas que possuía estavam absolutamente largas. Acabou escolhendo um vestido preto, reto, básico. Não ficaria justo no corpo como antes, mas... Pelo menos não pareceria um espantalho. Depositou o vestido em cima da cama antes de se dirigir para o banheiro com a toalha no ombro. Só então protestou:
- Você sabe muito bem que eu não...
A resposta foi imediata:
- Caralho! Ou melhor: trabalho, né? Ai, ai... Ninguém merece! Queridinha, hello! Hoje é véspera de feriado, tá rolando uma puta festa aqui em casa... Well... Se você não chegar em vinte minutos, juro que mando te internar! Uma workaholic celibatária? Afe! É um caso psiquiátrico super grave! Não posso permitir que a minha melhor amiga continue desse jeito, preciso arrumar alguém que te trate. Aliás... Aqui tem várias candidatas bastante qualificadas pra...
Foi a vez de Liv cortá-lo:
- Ai não, Fá... Por favor! Nada de me apresentar pra ninguém, tá? Eu ainda não...
Fábio completou, recitando o texto que já sabia de cor:
- Eu ainda não esqueci a Juliana, eu não quero conhecer outras mulheres, eu não estou pronta para um novo relacionamento, eu não quero só trepar por trepar, eu não blá blá blá blá blá...
Não era a primeira vez que tinham aquele diálogo. Há longos seis meses – exatamente o mesmo tempo desde que Juliana e Liv haviam se separado – Fábio tentava tirá-la do que ele intitulava de “depressão brega de sapa”. Para ele, um amor se curava com outro, e não havia quem o convencesse do contrário. Não compreendia - por mais que Liv tentasse explicar - que não era, nem de longe, assim tão fácil. 
Primeiro porque não fazia mais parte da filosofia de vida dela encarar outra pessoa como se fosse apenas um pedaço de carne. O que descartava completamente a idéia de sexo casual.
Segundo porque continuava apaixonada por Juliana. Apesar da traição, de ser sido trocada por outra, da forma com que ela se aproveitara para levar quase tudo que tinham em comum no final, e muitas outras coisinhas mais - que Liv preferia nem lembrar – por mais que parecesse idiota e se envergonhasse, Liv ainda a amava. Tinha plena consciência do quanto aquele sentimento era masoquista, e só servia para torturá-la, mas... Não conseguia exterminá-lo.
O terceiro era na verdade o motivo mais grave: a relação e o término com Juliana a haviam deixado em pedaços. Interiormente arruinada. Como se dentro dela, não houvesse sobrado nada além de escombros precariamente equilibrados, que ao menor movimento poderiam desabar. Apaixonar-se por outra pessoa era algo que sequer cogitava. Tudo o que queria era se proteger, se resguardar.
Exatamente por isso, Liv encerrou o assunto com um saturado:
- Eu sinto muito, mas é a verdade. E se você não consegue entender, talvez seja melhor eu ficar em casa.
A dor estampada na voz dela mudou o tom de Fábio:
- Ah não, amiga... Você não pode faltar... Por favor, vem... Por mim, vai...
Ela foi firme:
- Se eu for vai me deixar aproveitar a festa em paz?
Fábio deixou escapar um suspiro audível antes de assegurar:
- Ok. Se depender de mim, seu voto de castidade vai permanecer intacto.
Riram juntos. Abrindo o chuveiro, Liv insistiu, sabendo muito bem com quem lidava:
- Não me enrola, viado! Jura que não vai tentar dar uma de Cupido?
Apesar de bastante contrariado, ele confirmou:
- Já que insiste em cortar as minhas asas... Tá, eu juro.
Liv agradeceu com um bem humorado:
- Muitíssimo obrigada.
Um silêncio cúmplice, quebrado apenas pelo barulho da água, se estabeleceu. Instante significativo sustado pela ordem gritada:
- Tá fazendo o que aí parada, sapa? Desliga, entra nesse chuveiro, e já pra cá!

***

Não foi difícil para Maurícia convencer Miguel de que não precisava se preocupar com ela. Bastou um único olhar e pronto. Já Leandro... Não se conformava:
- Não é possível, Mau! Vai ficar a noite toda aí sozinha nesse canto?
Absolutamente satisfeita com a dose de whisky puro que tinha nas mãos, ela apenas assentiu. O cunhado, no entanto, não desistiu:
- Eu já volto. Espera aqui.
Maurícia se virou para o irmão, e sussurrou para que apenas ele ouvisse:
- Socorro!
Miguel impediu que Leandro fosse:
- Deixa, Le. Ela tá bem.
O cunhado perguntou diretamente para Maurícia, ainda tentando convencê-la:
- Mesmo?
Ela fez que sim com a cabeça:
- Mesmo.
Nem assim Leandro pareceu satisfeito:
- Pena, porque a minha amiga é perfeita pra vo...
Foi preciso que Miguel o interrompesse:
- Amor... Relaxa. Não insiste.
Completamente sem graça, Leandro se justificou:
- Desculpa! Minha intenção não era ser “o chato”, mas é que... Não gosto de te ver assim sozinha.
Maurícia estava verdadeiramente comovida com a preocupação dele. Mas não era por isso que iria se colocar numa situação no mínimo constrangedora. Não queria ser forçada a conhecer a tal amiga, por mais maravilhosa que fosse. Se um dia voltasse a se interessar por alguém, preferia que o destino traçasse esse encontro. Que acontecesse inesperada e naturalmente. Romântica incurável que no fundo ainda era e sempre seria, acreditava na inevitabilidade desse tipo de coisa.
Como boa adepta do falar pouco, foi com um sorriso e um beijo no rosto de Leandro que se expressou. Funcionou, pois imediatamente, o cunhado se animou de novo:
- Vamos dançar?
Com a mesma convicção com que Miguel concordou, Maurícia recusou:
- Vão os dois. Encontro vocês depois.

***

Liv já saiu do carro cumprimentando as pessoas. Era amiga de Fábio há tantos anos que provavelmente não havia quem conhecesse um sem conhecer o outro. Caminhou pela ruazinha lotada de automóveis em fila dupla de onde se escutava perfeitamente a música altíssima (I’d love you to want me – Heartclub – Dance Version
)imaginando como ninguém reclamava das festas constantes que provavelmente perturbavam a paz de todas as casas vizinhas. Se fosse no prédio dela, a vizinha de baixo já estaria gritando, o interfone tocando, e batendo na porta ninguém menos que o próprio síndico.
Quem sabe? Talvez fosse uma das muitas vantagens de morar num condomínio fechado para gente podre de rica...
As desvantagens Liv também conhecia. O guarda costas que acompanhava Fábio onde quer que fosse, 24 horas por dia. E as inseguranças terríveis:
- Nunca sei se estão interessados no meu dinheiro ou em mim.
O assédio dos alpinistas sociais chegava mesmo a ser ofensivo. E o resultado final era que Fábio tinha poucos a quem realmente podia chamar de amigos. Liv se sentia orgulhosa e feliz por estar incluída, pois sabia muito bem do que o “pobre garoto rico” era constituído. Um coração imenso e maravilhoso, mas que infelizmente, só quem conseguia se aproximar de verdade descobria.
Passou pelo portão lateral sem precisar dar o nome para os seguranças:
- Boa noite, Marcus! Oi, Vítor!
Os dois “armários” de terno impecáveis responderam sorrindo:
- Boa noite, dona Liv!
Atravessou rapidamente o jardim. Olhou de relance para o pequeno castelinho em miniatura – com laguinho em volta e ponte que baixava e tudo - que Fábio jurava que havia mandado construir para as sobrinhas, sem conseguir convencer Liv: “Confessa que você adora entrar aí e se sentir uma princesa, bicha!”
Para sua surpresa, havia alguém ali. Uma mulher. Sozinha, segurando um copo de... Whisky? Parecendo incrivelmente confortável naquele canto escuro e vazio. Liv ficou curiosa. A ponto de parar e forçar os olhos para ver quem era. Espantou-se ainda mais por não conseguir distinguir. Alta. Loira. Cabelo cacheado e comprido. Vestida da maneira mais simples: calça preta, camiseta e sapato escuros, sem acessório nenhum. Naquele exato momento, a estranha virou-se para ela, como se pressentisse que estava sendo avaliada. Devolveu o olhar de Liv com firmeza. Sem sorrir.
Aquele olhar desconcertou Liv. Inexplicavelmente, um profundo constrangimento a dominou.  Desviou os olhos, sacudindo a cabeça numa negação inconsciente, antes de virar e seguir o próprio caminho.

***

- Até que enfim! – Fábio gritou assim que avistou Liv. Avaliou-a de cima a baixo, antes de proferir: - Amiga, ser magra até pode ser lindo, mas se continuar emagrecendo desse jeito, todos vão pensar que você tem anorexia. Liv, tô falando sério, sua aparência tá preocupante! Se o problema é dinheiro, sabe que pode contar comigo.
Ela tentou negar e recusar, mas ele fingiu que não ouviu:
- Segunda vou te levar num médico. E não se fala mais nisso!
Nem a deixou responder. Dando o assunto por encerrado, puxou-a pela mão para o meio da pista, onde Miguel e Leandro estavam dançando:
- Olha quem chegou!
Sem pararem de rebolar, eles disseram num corinho fofo:
- Oi, Liv!
Com dois beijinhos em cada um, ela respondeu o cumprimento dos dois:
- Oi!
Sem se preocupar em disfarçar, Fábio deu um cutucão em Leandro:
- Fala!
Ele demorou um segundo para entender:
- Falar o que? Ah, é! – Virou-se para Liv e soltou: - Adivinha!
Liv não teve como não rir da conversa sem sentido:
- Adivinhar o que, bicha?
Os dois se entreolharam com cumplicidade. E como se tivessem ensaiado, disseram juntinhos:
- A irmã do Miguel tá aqui!
Na mesma hora Liv fechou a cara:
- E eu com isso? – Voltou-se furiosa para o melhor amigo: - Fábio, você prometeu!
Fábio sorriu, e disse de forma cínica:
- O Miguel quer que você conheça a irmã gêmea dele - que segundo eu soube, pode ser sua alma gêmea, amiga! - e a culpa é minha?
Liv se justificou:
- Nada pessoal, Miguel. Tenho certeza que sua irmã deve ser incrível, mas... É que tô num momento introspectivo, querendo ficar só na minha.
Leandro deixou escapar como se pensasse alto:
- O que diabos deu nessas lésbicas que querem todas ficar sozinhas?
Nesse exato momento, Fábio segurou o braço de Liv e preveniu, absolutamente apreensivo:
- Liv... Não olha agora, mas...
O aviso teve o efeito contrário. De imediato, os olhos de Liv procuraram a direção indicada e viram... Juliana.
Dançando, agarrada com... A namoradinha.
Não conseguiu desviar os olhos. Acompanhou cada movimento com uma dor mortificante cortando-a, afiadíssima. Os braços da ex mulher envolvendo sedutoramente o pescoço da outra que, segurando-a pela cintura, correspondeu se encostando, se esfregando, se insinuando contra o corpo dela. Devagar, em câmera muito mais do que lenta sob o ponto de vista torturante de Liv, as bocas das duas se tomaram, se saborearam, se devoraram como se fossem... Se fundir.
Ver Juliana aos beijos e amassos com outra fez Liv mergulhar numa onda incontrolável, intolerável, abrasiva. Uma agonia cega e irracional que desceu rasgando, queimando como se a própria bílis fosse uma chuva ácida espessa.
Não pensou. Agiu por instinto. Saiu quase correndo na direção oposta, abrindo caminho à força entre as pessoas. Só parou quando chegou ao jardim. Não porque quisesse. Continuaria fugindo. Se não batesse em algo sólido e ouvisse um:
- Opa!
Ficou mais envergonhada do que já estava – se é que isso era possível – ao ver que havia atropelado ninguém mais ninguém menos que... A loira do castelinho.
- Me desculpe, eu... Eu não queria... Você tá bem? Eu não te machuquei?
Ao contrário da outra vez, ela sorriu. A profundidade peculiar dos olhos intensamente azuis parecendo divertida:
- Sem ferimentos visíveis.


postado originalmente em 11 de fevereiro de 2011 às 17:06


 

CAPÍTULO DOIS



Depois de três doses de whisky e mais de uma hora explorando os recantos mais sossegados – se é que poderia chamar assim a penumbra repleta de casaizinhos – da festa, Maurícia estava mais do que pronta para ir embora. Resolveu pegar um taxi para não atrapalhar o irmão e o cunhado que estavam obviamente se divertindo. Foi então que viu o castelinho no fundo do jardim. Caminhou até ele, e estava admirando a miniatura de perto quando subitamente sentiu alguém atrás de si.
Ao virar, deparou-se com uma guria observando-a. Esquadrinhou a figura que a encarava, devolvendo o olhar inquisitivo e curioso. Nem alta nem baixa. Cabelos castanhos muito lisos. Magra demais para os padrões de Maurícia.
Com a mesma rapidez com que havia surgido, a guria desviou o olhar, afastou-se, e sumiu.
Maurícia não achou estranho. Há muito deixara de tentar compreender o comportamento dos seres humanos. Entender as mulheres então... Já sabia ser impossível.
Respirou fundo, acolhendo o sentimento que aquele tipo de pensamento trazia. Todos os relacionamentos amorosos que tivera na vida haviam sido profundamente significativos.  Lembrá-los não a incomodava. Os anos já os haviam esmaecido o suficiente para que não causassem sofrimento de nenhum tipo. Separando-os, guardando-os, classificando-os como passado e somente isso. Uma nostalgia diáfana. Algo que não se recupera, nem retorna, tampouco importa. Mas que era parte dela. Como tatuagens já cicatrizadas. Indolores e insensíveis, porém inegáveis. Eternamente visíveis.
Olhou para o copo que segurava, e resolveu parar de beber. Estava ficando filosófica demais.
Tomou a direção da pista de dança com passos rápidos, decidida a encontrar Miguel e Leandro para informar que voltaria sozinha para casa, quando...
O esbarrão não doeu nada. A roupa, no entanto, ficou encharcada. Maurícia achou ótimo, pois era um motivo a mais para retirar-se.
Ergueu os olhos e achou a coincidência engraçada. A mesma guria de antes. Desculpando-se, completamente embaraçada. Ia tranquilizá-la, quando um moreno apareceu gritando:
- Eu juro que não tenho nada a ver com isso!
A guria virou-se para ele absolutamente enfurecida:
- Por que você não me disse que ela vinha?
Continuaram como se Maurícia não estivesse ali:
- Não fui eu que convidei, Liv!
- Mais cedo ou mais tarde eu ia acabar tendo que ver as duas juntas...
- Ah, minha linda! Sei que não é fácil, mas... Não pode perder a linha. Não deixe ela perceber, tá me ouvindo? Precisa fingir que tá ótima! Que não tá nem aí. Que ela não significa... – Só então se deu conta da presença de Maurícia, que os observava em silêncio. Levou a mão à boca: - Ó, meu Deus! Você é... Você é a... Isso não pode ser só coincidência!
Maurícia apenas levantou uma das sobrancelhas, numa interrogação muda. Foi Liv quem falou:
- Isso o que?
Arrebatado por uma excitação desmedida, Fábio bombardeou as palavras:
- Estávamos querendo apresentar vocês o tempo todo, só que nenhuma das duas aceitou, e olha só: nem foi preciso! - Nenhuma delas esboçou a menor reação. Então, ele explicou da forma mais bizarra, como se quando falasse com uma a outra não pudesse ouvir. Primeiro para Maurícia: - Ela é a Liv, a amiga de quem o Leandro com certeza, fez propaganda. – Depois para Liv: - Ela é a irmã gêmea do Miguel. – e de novo para Maurícia: - Maurícia, não é isso?
Liv olhou para Maurícia bem a tempo de vê-la assentindo, com o desagrado estampado no rosto, muito mais do que explícito.
Como se tentasse provar que qualquer situação sempre pode se tornar pior e mais constrangedora ainda, Fábio perguntou, olhando de uma para outra:
- Interrompi alguma coisa, meninas?
Maurícia franziu o cenho. Liv fez o mesmo gesto, sem se dar conta. Ia impedir que o amigo prosseguisse, mas muito mais rápida foi a loira:  
- Me desculpem, mas... Eu já vou indo.
Maurícia inclinou a cabeça num cumprimento amistoso para Liv, e com uma dignidade invejável, se retirou.
- Bicha, que horror! Tá querendo me matar de vergonha?
Fábio ficou indignado:
- Como assim? Só tentei dar uma forcinha...
Sacudindo a cabeça negativamente, Liv continuou a reprovação:
- Forcinha? Imagine o dia que quiser atrapalhar então...
Ele apertou os olhos, desconfiado. Depois sorriu, na maior animação:
- Ah, então quer dizer que eu realmente interrompi algo? Anda logo! Me conta! Quero saber detalhes!
Liv quase gargalhou:
- Ah, viado, o que você acha? Que nos olhamos e ficamos loucamente apaixonadas? Isso aqui não é novela, sabe?
Leandro apertou os olhos, desconfiado:
- Menos discursinho e mais informação! O que foi que rolou, ãh?
Sabendo perfeitamente que era o único jeito de pôr fim na insistência do amigo, ela cedeu:
- Tirando um esbarrão e a bebida que entornei inteira na roupa dela? Nada!
Fábio não desconversou. Muito pelo contrário. Foi direto ao ponto:
- Liv, fala a verdade. Não ficou nem um pouquinho interessada?
- Sinceramente? - Foi rápido. Não passou de um breve lapso. Mas Liv não respondeu de imediato:- Não.
O suficiente para o instante inconsciente de hesitação não passar despercebido por Fábio.

***

Leandro gritou assim que a viu:
- Ei, Mau! Vem dançar!
Miguel foi muito mais perspicaz:
- Que aconteceu?
Maurícia o acalmou de imediato:
- Não foi nada.
O irmão insistiu, ainda preocupado:
- Como nada? Tua roupa tá toda molhada...
Não teve tempo de explicar. A voz absolutamente vexada atrás dela foi muito mais rápida:
- A culpa foi minha.
Viraram-se juntos para Liv, os dois pares de olhos muito azuis emparelhados reforçando a semelhança incrível. Maurícia fitando-a novamente com um olhar impenetrável. Miguel com a expressão surpresa de quem não está entendendo nada.
Fixou-se na segurança que os olhos dele proporcionavam:
- Esbarrei na sua irmã e acabei entornando a bebida dela... Nela... Quer dizer... O copo que ela estava segurando virou e... Molhou a roupa e ela...
Foi inevitável.
Maurícia sorriu, divertida. E Liv... Desejou ter um buraco para poder enfiar a cabeça dentro.
Fábio olhou de uma para a outra, como se as analisasse. Com um falso tom inocente, sugeriu:
- Acho que você deveria levar a Maurícia pra casa, Liv. Já que foi você que...
Foi bruscamente interrompido:
- Eu não acredito! 
Sem precisar se virar como os outros para identificar a dona da voz tão conhecida, Liv não encarou Juliana imediatamente. Numa reação inconsciente, fechou os olhos. No momento seguinte respirou fundo, retomando um precário domínio do próprio corpo antes de virar-se para ela num meio sorriso.
Tudo isso em apenas uma pequena fração de segundo, onde todos – menos Maurícia - olhavam para a morena exuberante que insistia:
- Liv, você não ia falar comigo?
Maurícia continuou prestando atenção na reação de Liv. O desconforto dela era nítido:
- Eu... Não tinha te visto.
Não conseguiu dizer mais do que isso. Nem foi preciso. Depois de dois beijinhos, como se nunca tivessem sido mais do que amigas, Juliana prosseguiu:
- Faz tempo que não nos falamos. Tenho ótimas notícias. Finalmente fui promovida!
Olhou para Liv esperando a resposta. Sem saber como seguir outro caminho, Liv fez o que os anos de relação haviam estabelecido. Respondeu, exatamente como Juliana queria:
- Que bom. Muito mais do que merecido.
E Juliana continuou na segurança cômoda de quem domina:
- Você mais do que ninguém sabe o quanto eu sempre ralei pra conseguir isso.
Liv murmurou a única coisa possível:
- É.
Com uma felicidade quase ofensiva, Juliana completou:
- E agora a Su vai morar comigo.
Nesse exato momento, como se fosse combinado - mas se fosse combinado, não aconteceria de forma tão precisa – a tal Su apareceu do nada, e abraçou Juliana por trás:
- Amor, você tem mesmo que espalhar pra todo mundo?
Juliana girou sem se soltar do abraço para enlaçar a namorada pelo pescoço e beijá-la nos lábios:
- Ah, amor! Quero que o mundo inteiro saiba o quanto você me faz feliz!
Uniram-se num beijo cinematográfico, levando Liv ao limite do humanamente suportável.
Talvez tivesse gritado. Ou arrancado a ex mulher dos braços da outra. Ou metido a mão em Juliana, ou na tal Su, ou mais provavelmente nas duas...
Impossível prever o que seria capaz de fazer se... Maurícia não falasse do nada:
- Vamos, Liv?
Voltou-se surpresa para os olhos ostensivamente azuis. Sem compreender a intervenção inesperada:
- Ahn?
Não foi um pedido. Maurícia foi enfática:
- Me leva pra casa. 



postado originalmente em 23 de fevereiro de 2011 às 13:02

CAPÍTULO TRÊS


Naquele momento, o sentimento que moveu Maurícia não foi pena, e sim... Uma empatia profunda. Incisiva. Subversiva mesmo. Profundamente solidária.
Não do tipo de quem se coloca no lugar do outro, mas de quem já havia estado naquela posição.
Procurou não julgar se a morena - obviamente a ex de Liv – era louca, muito escrota ou completamente sem noção. Agindo instintivamente, sem usar a racionalidade, insistiu:
- Vamos?
Um brilho de compreensão finalmente surgiu nos olhos de Liv, enquanto ela concordava:
- Vamos.
Despediram-se rapidamente de Miguel, Leandro e Fábio.
Liv dirigiu um último olhar para Juliana, que continuava alheia a tudo, beijando a namorada.
E então, jurando para si mesma que aquela era a última vez que permitiria que a ex a deixasse naquele estado, virou-se e caminhou em direção a saída, com Maurícia seguindo-a. Sem a menor necessidade de palavras.

***

Leandro puxou Miguel para longe de Juliana e da namorada:
- Uau! Realmente, minha cunhada é algo!
Fábio juntou-se aos dois, igualmente empolgado:
- Por todos os deuses! Deu certo!
Mas Miguel conhecia Maurícia:
- Não sei não.
Abraçando o namorado, Leandro retrucou:
- Que isso, amor? Você não sentiu a energia? Não viu os sinais?
Quase gritando, Fábio concordou:
- Tá na cara que elas tão profundamente conectadas! E digo mais: foi uma coisa linda! As duas resistiram, não quiseram, mas mesmo assim se esbarraram. Coisa do destino! Inevitável! Ai, eu fiquei até inspirado... – gritou para quem quisesse escutar: - Preciso de uma boca pra beijar!
E saiu dançando e olhando em volta, procurando um alvo.
Miguel discordou, como se pensasse alto:
- Foi fácil demais.

***

Assim que chegou em frente ao carro Liv começou a tremer. O choro veio de forma incontrolável.
A intenção de Maurícia era apenas tirá-la de lá. Não pretendia obrigar Liv a levá-la. Podia perfeitamente pegar um taxi.
O descontrole dela, no entanto, mudou tudo que havia planejado.
Tocou o ombro de Liv de leve, com todo o cuidado. Mesmo assim, ela saltou ao contato. Maurícia recuou, não querendo ser invasiva. Afinal de contas, não tinham a menor intimidade. Na verdade, sequer se conheciam. Ficou um pouco sem graça, sem saber direito o que fazer ou o que falar.
- Não prende. Desabafa. – foi o que afinal deixou escapar.
De costas para ela, Liv fez exatamente o contrário. Enxugou o rosto com as mãos, e conteve as lágrimas:
- Não, eu... Eu tô bem... Não precisa se preocupar... Desculpe, eu não queria... Foi só um...
Maurícia não a deixou continuar:
- Tudo bem, guria. Relaxa.
Mas Liv estava – não poderia ser diferente – inteiramente em pedaços. Estressada, magoada, envergonhada na frente de uma completa estranha que provavelmente a julgava a mais estúpida das criaturas. E no entanto, a salvação não viera das mãos de nenhum dos amigos, mas exatamente da desconhecida que a fitava. Uma angústia corrosiva voltou a dominá-la. Sentiu-se na obrigação de justificar:
- Obrigada. Eu... Normalmente não sou... Você deve estar pensando que eu...
Maurícia a cortou sem hesitar:
- Eu não estou pensando nada. Te acalma.
De um jeito estranho, inexplicável, a firmeza quase rude dela conseguiu reconfortá-la.
Liv a fitou num misto de espanto e gratidão. Estranhando, mas não querendo questionar, nem encontrar naquilo qualquer tipo de razão.
Observando-a atentamente, Maurícia perguntou:
- Consegue dirigir?
Liv respondeu ainda enxugando as lágrimas:
- Claro.
Mas Maurícia não ficou muito convencida. Preocupada, não achava prudente deixá-la sozinha. Entretanto, a última coisa que desejava era dar trabalho. Acabou dizendo:
- Vou pegar um taxi.
O protesto de Liv foi quase ofendido:
- Não! – sem querer ser mal interpretada, completou de um jeito bem mais suave: - Eu posso te levar.
Maurícia tentou recusar:
- Não precisa. – percebendo o quanto estava sendo indelicadamente categórica, amenizou com um brando: - Eu não quero te incomodar.
Liv então foi decisiva:
- Incômodo nenhum. Faço questão de te deixar em casa. – destravou as portas, entrou no carro, e praticamente intimou: - Vem.
Deixando Maurícia sem ter como nem porque não aceitar.

***

O silêncio que se instaurou não incomodou Maurícia. Muito pelo contrário. Com o vidro aberto para receber o vento no rosto e admirar melhor a paisagem, deixou-se encantar pela beleza do caminho. Facílimo. A vista do elevado do Joá era uma das suas favoritas do Rio.
Liv, por sua vez, sentiu um profundo alívio quando finalmente percebeu que Maurícia não tentaria puxar conversinhas triviais, falar sobre o que havia acontecido, nem nada do tipo.
Não queria voltar a pensar na ex, mas... Tarefa difícil, quiçá impossível. Mesmo contra a sua vontade, a mente projetava os flashes dolorosos impiedosamente, como se fosse um filme.  Juliana com a outra. Dançando... Beijando... Sorrindo... Proclamando para quem quisesse ouvir: “A Su vai morar comigo!” com uma felicidade ofensiva.
Deixou escapar um:
- Puta que o pariu!
Sem nem sentir.
Só depois lembrou que não estava sozinha. Olhou para a loira sentada no banco do carona ao lado dela. Fitando-a, seriíssima.
Suspirou profundamente. Depois de tudo que a irmã de Miguel havia presenciado, era inútil tentar ter qualquer tipo de... Bom, fingir que estava tudo bem não fazia o menor sentido. Resignada em mais uma vez, ser incapaz de manter a linha, acabou explodindo, numa necessidade súbita, inteiramente impulsiva:
- Como ela pôde fazer isso comigo?!
Maurícia não respondeu. Permaneceu quietinha. Absolutamente ciente de que naquele momento, não precisava nem deveria fazer nem falar nada. Ela só precisava de alguém que a ouvisse.
Exatamente como Maurícia calculou, Liv continuou extravasando:
- Eu nunca pensei que... Esperava tudo, menos isso. Como eu sou estúpida! Eu sou uma babaca, uma imbecil! A facilidade com que ela... Além de me trair, me descartou, me trocou como se eu fosse um pano de chão usado! Como eu não vi? Como eu não percebi? Ela não liga, nunca ligou. Não tá nem aí pro que eu sinto ou deixo de sentir. Nem me conhece o bastante pra isso. Sequer sabe quem eu sou. Se soubesse não... Ah! Pra ela eu não sou nada! E eu fui idiota o bastante pra dar cinco anos da minha vida pra essa filha da puta escrota e egoísta!
O desabafo terminou em lágrimas. Que Liv tentou enxugar com uma das mãos, sem muito resultado.
Maurícia sugeriu:
- Quer encostar o carro?
Liv virou-se para Maurícia. Pronta para descontar nela toda a frustração, a irritação, a revolta que sentia. Entretanto...
A doçura do olhar azul...
Foi o que a impediu. Não engoliu a resposta nada educada que tinha nos lábios. Ela simplesmente... Esvaiu-se. No lugar dela, o que surgiu foi um suave:
- Não, eu tô bem. Pelo menos pra dirigir.
Riu de si mesma. Sozinha. Uma vez que... Maurícia não aderiu. Apenas a fitou, avaliando-a.
Em circunstâncias normais, estranharia. Porém, a situação era, por si só, totalmente fora do comum. Impossível tirar qualquer tipo de conclusão. Agiria diferente no lugar dela? Apesar das diferenças culturais, e de ser evidentemente mais introspectiva, Maurícia não poderia afirmar nem que sim, nem que não.
Liv passou o restante do percurso em silêncio. Até gostaria de amenizar a situação terrivelmente embaraçosa, mas... Depois de tudo, estava convencida de que o melhor era evitar maiores constrangimentos. Ou seja: permanecer muda.
Conseguiu por um bom tempo. Chegando na Gávea, subiu até o fim da Rua Major Rubens Vaz, estacionou em frente ao prédio de Leandro e Miguel, e... Falhou vergonhosamente no intento. Assim que desligou o carro, viu-se falando:
- Olha... Desculpa, eu... Você deve estar achando que eu sou uma louca, mas é que... Realmente não tô nos meus melhores dias, e... – parou, suspirou. Olhou diretamente para os olhos azul cobalto, e completou com uma firmeza suave e doce: - Me desculpe.
A mudança no tom e no olhar dela desconcertou Maurícia. Inexplicavelmente, um profundo constrangimento a dominou.  Desviou os olhos. Já se soltando do cinto de segurança, respondeu:
- Tudo bem. Não te preocupa.
Liv insistiu:
- Também quero te agradecer.
Maurícia voltou a fitá-la, num misto de diversão e surpresa:
- Pelo que?
Foi a vez de Liv baixar os olhos:
- Você me salvou. Se não tivesse me tirado lá da festa, eu... Acho que... Ia perder a cabeça. – tinha os olhos marejados quando buscou os azuis novamente: - Muito obrigada mesmo.
Liv sorriu, sem ter idéia do que trazia na expressão. Muito mais dor do que qualquer outro sentimento.
Uma enorme aflição tomou conta de Maurícia ao vê-la, percebê-la, e afinal... Reconhecê-la. Contestou baixo, sem conseguir disfarçar direito:
- Nada. Eu que te agradeço. – os olhares voltaram a se encontrar, perdidos numa confusão de sensações, emoções e anseios. Maurícia completou esquivando o olhar, como quem tenta escapar de um erro: - Obrigada pela carona.
Liv replicou um pouco sem jeito:
- O mínimo que eu podia fazer era trazer você.
Maurícia colocou a mão na maçaneta da porta. Sem no entanto, abrí-la:
- Bom... Então boa noite, eu... Vou descer.
A reação de Liv foi absolutamente visível. Tentou disfarçar inutilmente:
- Ah, é claro... Então... Boa noite...
A melancolia, a fragilidade, a solidão na voz dela, ou talvez... Todas as três. Fizeram Maurícia seguir o impulso inexplicável de sugerir:
- Quer subir? Conversar um pouco?
Tentou recusar da maneira mais sincera:
- Melhor não, eu... Adoraria, mas... Não quero incomodar mais do que já incomodei.
Impossível para Maurícia não rir. Da negação menos convincente que já havia ouvido. Foi curta e grossa:
- Se fosse incômodo, eu não convidava. – abriu a porta e saiu, deixando Liv imóvel e perplexa dentro do carro. Esperou do lado de fora pela decisão dela. Nada. Estranhando a demora, enfiou a cabeça de volta: - Tu vem ou não?
Nunca, em todos os seus 38 anos de idade, Liv havia visto uma rispidez mais... Não tentou encontrar a palavra.
Fez que sim com a cabeça, saiu, fechou, ligou o alarme do carro, e a seguiu... Com um sorriso divertido nos lábios.


postado originalmente em 02 de março de 2011 às 10:55

CAPÍTULO QUATRO


- Preciso de um banho.
Não estava mais molhada, graças ao calor – insuportável para Maurícia. Para Liv, apenas normal.
- Vai lá.
Depois de deixar a bolsa em cima do móvel mais próximo da porta, Liv largou-se no sofá, deixando nítido o quanto era íntima da casa. Ainda assim, Maurícia perguntou:
- Quer tomar alguma coisa? Quem sabe comer algo?
A primeira reação de Liv foi fazer que não com a cabeça. Um segundo depois, mudou de idéia:
- Pensando melhor... Preciso de uma cerveja. Mas deixa que eu pego. Vai se livrar dessa roupa, deve estar grudando.
Não tentou se desculpar outra vez por ter derramado a bebida nela, intuindo que não era o que Maurícia desejava.
Não poderia estar mais certa. Com um sorriso aliviado, Maurícia a fez sentar-se de novo:
- Eu pego. – antes insistiu: - Tem certeza que não quer comer nada?
Liv voltou a recusar, e Maurícia sacudiu os ombros, resignada, antes de desaparecer cozinha a dentro.
Voltou com uma latinha de cerveja dentro de uma “camisinha” de isopor, uma tulipa, e um descanso de copos.
Liv não teve como deixar de rir:
- Pelo visto, o Leandro já te botou na linha, né?
Maiores explicações eram desnecessárias. Leandro era obcecado com a ordem da casa, todo mundo sabia.
- Manchar um desses móveis... Bah!
Riram juntas. Por diferentes motivos. Maurícia da “frescura” do cunhado. Liv por que...
- Desculpa... É que acho esse “bah!” de vocês tão engraçadinho... 

Maurícia a fitou, muito séria. Deixando Liv cheia de vergonha, arrependimento e culpa: 
- Desculpa... Eu não queria... Que impressão horrível você deve estar tendo de mim... Ai, me desculpa...
Foi a vez de Maurícia rir:
- Tudo bem. Fica tranquila. – piscou para ela, de um jeito descontraído que Liv absolutamente não esperava: - Só tô implicando contigo. – e completou: - Tu fica bem aí?
Bastante desconcertada, Liv respondeu um simples:
- Sim.
Maurícia ainda avisou:
- Já volto.
Antes de desaparecer no corredor que levava aos quartos.

***

Tentando distrair a mente que, sozinha e com o auxílio da cerveja, voltava perigosamente a pensamentos que preferia evitar, Liv acabou ligando a enorme TV. Não soube dizer quanto tempo ficou daquele jeito, mudando os canais a cabo incessantemente, sem que nada a interessassse.
Surpreendeu-se quando Maurícia retornou à sala.
- Bah! Que calor do inferno!
Dessa vez, Liv não riu da interjeição gauchesca. Estava mais preocupada em conter os próprios olhos. Sem resultado.  Involuntariamente, acabou examinando Maurícia de cima abaixo.
Completamente à vontade de camisetinha, bermuda, Havaianas, e os cabelos cacheados presos num coque seguro por um pauzinho atrás. Parecia... Bem diferente, na verdade.
Maurícia interpretou erroneamente a avaliação que sofreu. Olhando para si mesma, perguntou:
- Que foi? Tem alguma coisa errada?
Liv disfarçou magistralmente:
- Não. É que você tá tão praiana...
Riram juntas.
Sem saber ao certo porque - muito raro dar informações sobre si mesma, principalmente para uma quase desconhecida - Maurícia respondeu:
- Morei muito tempo em Floripa.
Liv retrucou sem nenhuma estranheza:
- É mesmo? Adoro Floripa!
Queria saber mais. Até pensou em perguntar: “Saiu de lá por quê?”. Mas não o fez.
Esperando que o assunto morresse, Maurícia sentou-se na poltrona ao lado do sofá onde Liv estava. Só então percebeu a tv ligada. Aproveitou para desviar o tema da conversa definitivamente:
- O que tu tá vendo?
Sacudindo a cabeça numa negação inconsciente, Liv respondeu:
- Nada. Quer ver alguma coisa?
Estendeu o controle para Maurícia, que recusou:
- Não sou muito fã de tv.
Falou executando o que estava dizendo:
- Vou desligar então.
Um silêncio incômodo se instaurou. 
Liv tentou quebrá-lo com a única coisa que lhe ocorreu:
- Quer ligar o som?
A primeira palavra que veio à cabeça de Maurícia foi: “Não!”.
Depois de três dias na casa do irmão, sabia que o tipo de música que ela gostava e o tipo que Leandro e Miguel escutavam não era exatamente... O mesmo.
Mas a expressão ansiosa, quase suplicante de Liv a fez dizer:
- Por mim, tudo bem.
Parada na frente da enorme pilha de CDs e DVDs, Liv foi gentil:
- Tem alguma preferência?
Maurícia mentiu:
- Não. Pode escolher.
Liv deu de ombros, e optou pela maneira mais fácil de resolver o dilema:
- Bom... Vamos ouvir o que já tá dentro do aparelho. - Reconheceu imediatamente a música que invadiu a sala com tudo: “Oh! Darling” (Across the Universe Soundtrack).
Sacudindo a cabeça no ritmo da música, Liv comentou rindo:
– É tão a cara deles, né?
Maurícia limitou-se a um indefinível:
- É.
Tentou disfarçar a própria intolerância a releituras de clássicos. Mas Liv percebeu:
- Quer que eu mude?
O pensamento de Maurícia foi ligeiro: “Ela parece estar gostando da música que... Realmente, não é nada má.”
- Não.
Liv insistiu, ainda sem estar convencida:
- Mesmo? Não prefere que eu desligue?
A mente de Maurícia operou de novo rapidamente: “Voltar ao silêncio? Capaz!”
A firmeza foi plena:
- Beatles são Beatles. Deixa.
Liv voltou a sentar na poltrona:
- Ok.
Não só para puxar conversa. Maurícia realmente sentiu vontade de saber:
- Conhece meu irmão há muito tempo?
Despejando o resto do conteúdo da latinha na tulipa, Liv esclareceu:
- Uns três anos. Desde que ele começou a ficar com o Le. – bebeu um gole da cerveja antes de prosseguir: - Conheço o Le desde os tempos de faculdade. Eles foram feitos um pro outro, né?
Maurícia riu:
- Sou suspeita. Adoro o Leandro. E o mano...
Deixou a frase em suspenso. Liv aquiesceu com a cabeça, num entendimento pleno. Deixou escapar sem querer:
- Deve ser estranho...
Fazendo Maurícia rir outra vez:
- O que?
Levantou, com a latinha na mão:
- Ter um irmão gêmeo.
Maurícia ficou de pé também:
- Deve ser estranho não ter.
Riram juntas.
Antes que pudesse protestar, Maurícia tirou a latinha da mão dela e sumiu cozinha adentro.
Liv então sentou no sofá e recostou-se, resignada a ser servida novamente. O tempo passou sem que percebesse. A música mudou: Something” (Across the Universe Soundtrack). E com ela, toda a atmosfera.
O som, o tom, a letra... A própria solidão de meses. Sugaram qualquer tipo de defesa. Impossível se dominar.  Pensou em Juliana. Nas noites adormecendo abraçadas, de conchinha. Nas manhãs acordando juntas. O amor feito como se nada mais existisse... Cafés da manhã na cama, banhos, passeios, viagens, beijos... Foi obrigada a confessar para si mesma: apesar de tudo, ainda queria... Não só o presente, mas o futuro que haviam sonhado e planejado juntas. Que realmente fosse para sempre.
Teve medo. De ficar presa naquele tormento. Desejando, absolutamente sozinha, algo que nunca conseguiria ter. Dor pungente que desceu em avalanche, devastando-a por completo.
Ainda estava prostrada, imersa no próprio desespero, quando Maurícia retornou, com uma latinha de cerveja na mão e um prato de petiscos na outra.
Assustou-se quando a viu daquele jeito:
- Que aconteceu?
Liv levantou a cabeça lentamente. Bastou os olhos marejados encontrarem os dela para que os de safira compreendessem.
Sem dizer mais nada, Maurícia depositou as coisas que segurava na mesa e desligou o CD. Liv levantou:
- Eu... Vou indo...
Apesar de categoricamente impedida:
- Senta aí, guria. Deixa de besteira!
Discordou com rudeza:
- Já dei vexame suficiente. Chega!
Maurícia postou-se na frente dela:
- Não vou te deixar sair por aí desse jeito. - Os olhares se conectaram de novo. O tom foi muito mais suave: - Te acalma primeiro.
Continuaram se fitando, num embate convergente.  Liv desviou os olhos rapidamente:
- Preciso de ar.
Caminhou até a varanda em largas passadas. Maurícia foi atrás, e debruçou ao lado dela no parapeito. Admiraram a vista em silêncio, durante um longo tempo.
Até Maurícia suspirar:
- Que bom esse vento!
Sem olhar para ela, Liv assentiu com a cabeça.
Foi num impulso. As palavras saíram antes que Maurícia pudesse contê-las:
- É a tua primeira separação?
Um suspiro de exaustão evidente antecedeu:
- Não. É a terceira. – A reação de Maurícia não poderia ser mais autêntica. Soltou um assobio. Liv não soube dizer se de admiração ou surpresa. Nem se preocupou em decifrar. Possuía uma angústia mais urgente: – Deveria ser mais fácil? Não sei... Exatamente por eu já ter levado muitas outras rasteiras, por não ser a primeira vez que desejei envelhecer com alguém... Essa sensação de que... A errada sou eu, que... Falhei, mais uma vez. Parece pior, muito pior. Um pesadelo.
O olhar azul virou-se pensativo para frente:
- Talvez seja. E um dia tu acorde e perceba que a verdadeira dor é não saber lidar com a própria perda. – antes que Liv pudesse dizer qualquer coisa, completou: - Falar é fácil, eu sei.
Um barulho vindo da porta da rua chamou a atenção das duas.
Olharam para trás juntas, e viram... Miguel e Leandro entrando no apartamento. Absolutamente felizes, rindo e se agarrando, aos beijos.


postado originalmente em 09 de março de 2011 às 14:38 







CAPÍTULO CINCO


Liv estranhou a discrição absoluta de Miguel e Leandro. Sentaram-se com elas na sala sem um comentário sequer. A conversa fluiu, tão agradável que perdeu a noção da hora. Assustou-se quando olhou no celular e descobriu: quase três da manhã!
Levantou-se:
- Vou indo.
Leandro e Miguel protestaram:
- Fica mais um pouco, Liv! Nem tá tão tarde!
Maurícia limitou-se a pôr-se de pé ao lado deles. Liv fitou-a, antes de replicar:
- Melhor eu ir.
Despediu-se com dois beijinhos em cada um dos dois. Rapidamente, para que não voltassem a insistir.
Parou na frente de Maurícia, com uma falta de jeito visível. Vencendo o embaraço inicial, encostou o rosto no dela. Repetiu o mesmo gesto do outro lado, sussurrando para que ninguém mais ouvisse:
- Obrigada.
Maurícia respondeu no mesmo tom de Liv:
- Nada.
Antes de mover o rosto para um terceiro beijinho. Liv não acompanhou o movimento. Os olhos absolutamente azuis não se abalaram. Apenas justificaram, de uma forma absolutamente bem humorada:
- Sempre esqueço que aqui são só dois...
Sorriram uma para a outra.
Miguel e Leandro se entreolharam com um sorriso bem menos inocente. Miguel propôs:
- Liv, amanhã vamos levar a Mau nas Paineiras e na Praia da Reserva. Por que tu não vem com a gente?
A simples promessa de reenergizar o corpo na ducha forte e gelada, e depois no sol e no mar já deixava Liv mais relaxada. Seria muito bom espairecer. Porém, não queria impor a própria presença. Muito menos criar qualquer tipo de constrangimento. Já havia causado transtorno mais do que suficiente, e não queria que Maurícia... Buscou-a com o olhar... Inconscientemente:
- Não sei...
A dúvida de Liv era óbvia. Inegável. E completamente incoerente. Maurícia queria deixar claro que não passava de uma grande besteira. Não se importava. Ou melhor: se importava, mas não do jeito desagradável que Liv pensava. Muito menos da maneira que o irmão e o cunhado insistiam em fantasiar. Reforçou o convite sem hesitar:
- Vem com a gente.
Com um aceno de cabeça, Liv aceitou. Virou-se para Miguel e Leandro depois:
- Que horas?
Leandro acompanhou-a enquanto combinava:
- Passamos pra te pegar por volta das dez. Mas eu ligo quando estivermos saindo.
Ela ainda acenou da porta:
- Tchau.
Miguel e Maurícia responderam juntos:
- Tchau.
Leandro avisou:
- Vou levar a Liv.
Liv começou a protestar, mas não foi possível acompanhar o desfecho, uma vez que... Leandro bateu a porta atrás deles.
Assim que se viu sozinho com Maurícia, Miguel virou-se para ela. Não disse nada. Nem precisava.  Bastou um único olhar.
- Miguel, para!
Ele riu:
- Parar o que?
Maurícia não conseguiu evitar:
- Tu sabe.
Só serviu para o irmão se divertir ainda mais:
- Eu? Não sei de nada. Mas... Adoraria saber. Como e por que a Liv veio parar aqui, e o que vocês estavam fazendo?
Maurícia bufou. Sentindo-se de volta aos treze anos de idade, quando o irmão aproveitava a instrospecção dela para atormentá-la a ponto de levá-la às lágrimas. Por mais que os anos houvessem passado - e eles tivessem crescido, amadurecido e mudado - Miguel continuava adorando provocá-la. Mesmo sem obter mais o mesmo resultado.
Sentou-se no sofá, aparentemente calma:
- Deixa de bobagem.
Ele a analisou de cima a baixo. Aproximou-se devagar. Parou na frente dela, obrigando-a a levantar a cabeça para que os olhares se encontrassem. Não facilitou. Muito pelo contrário:
- Se é bobagem, por que não quer me contar?
Maurícia respirou profundamente. Sacudiu a cabeça de um lado para o outro, numa censura levemente exasperada. Miguel sentou-se ao lado da irmã. Demorou alguns instantes para falar. Da forma que só ele fazia. Como se as palavras a penetrassem, a despeito de qualquer defesa ou tentativa de se resguardar:
- É tão difícil assim?
O silêncio voltou a se instaurar. Ficaram se fitando. Maurícia sabendo perfeitamente que jamais poderia nem desejaria se livrar do tipo de conexão especial que possuiam. 
Arrependendo-se antes mesmo de dizer, perguntou, exatamente como ele queria:
- O quê?
Com um sorriso absolutamente tranquilo, Miguel não respondeu, exigiu:
- Admita que gostou da Liv.

***

Depois que estacionou na garagem, Liv passou pela portaria do próprio prédio. O porteiro estava roncando sentado numa cadeira, com a cabeça encostada na parede. Tentou passar sem incomodar, mas ele abriu os olhos e endireitou-se, como se algum tipo de sensor interno o alertasse para a presença dela, que cumprimentou:
- Boa noite, Geraldo.
Ainda piscando, ele olhou para o relógio de pulso e respondeu com um sorrisinho irônico:
- Bom dia, dona Liv.
Um suspiro escapou da garganta dela enquanto se encaminhava para a porta. Ainda teve que pedir:
- Por favor, Geraldo, abre pra mim.
Com uma lentidão quase irritante, ele apertou o botão debaixo da mesa, liberando-a.
Leandro a esperava impaciente, encostado no carro dele, do outro lado da rua. Assim que a viu, atravessou e caminhou direto para Liv. 
Ainda achando um absurdo ele vir atrás dela escoltando-a, como se fosse incapaz de voltar sozinha, Liv mais protestou do que agradeceu:
- Não precisava ter vindo, Le. Já cansei de voltar muito mais tarde do que isso e...
Leandro a interrompeu:
- Precisava sim! Tô louco pra saber!
Sem entender direito, Liv torceu o rosto numa careta:
- Hein?
Não acreditou quando ouviu:
- O que rola entre a minha cunhadinha e você?
Contendo-se, deixou escapar um exasperado:
- Bicha...
Não soube dizer se ele fingiu ou se realmente não ouviu:
- Namoro, casamento, ou só pegação mesmo?
Soltou um agudíssimo:
- Enlouqueceu? - Olhou para trás e... Deu de cara com os olhos e ouvidos do condomínio. Puxou Leandro para o lado, afastando-se um pouco do porteiro antes de prosseguir baixinho: - Ela foi muito legal.
A decepção de Leandro era evidente:
- Legal?
Liv completou:
- Apesar da vergonha que eu...
Imediatamente, ele se animou:
- Vergonha? Mas afinal de contas, o que foi que aconteceu?
Liv ainda avisou:
- Não é o que você tá pensando.
Antes de contar com detalhes a noite absolutamente embaraçosa que teve.

***

Foi a vez de Maurícia rir:
- Tu anda vendo muita novela.
Levantou-se, pronta para encerrar a conversa. Miguel a deteve:
- Mau, espera. – Quando Maurícia virou, o olhar do irmão estava diferente: - Tu sabe que eu me preocupo contigo.
Pôs-se de pé ao lado dela. Segurou as mãos de Maurícia entre as dele de um jeito que também a fez mudar o tom completamente:
- Quantas vezes eu vou ter que repetir que tô bem?
Ele insistiu:
- Bem é uma coisa. Feliz é outra.
E ela foi obrigada a contestar, exatamente como não queria ter que fazer:
- Felicidade é uma coisa tão relativa... O que é pra uns, não é pra outros.  Óbvio que a minha vida não é perfeita. Mas me satisfaz.
No fundo da declaração havia uma melancolia que Miguel não deixou de perceber:
- É muito pouco, Mau.
Ela o fitou. Sorrindo, com uma ternura assustadoramente resignada:
- É bem mais do que a maioria das pessoas têm. - A apreensão nos olhos dele comoveu-a. A ponto de Maurícia tentar amenizar: - Não é que eu não queira encontrar alguém. Só me recuso a condicionar a minha felicidade a uma coisa externa, que pode ou não acontecer.
- E enquanto isso vai ficar sozinha? Em três anos, tu não...
Nem precisou completar. Maurícia compreendeu perfeitamente:
- É isso que tu quer saber?
Profundamente sem jeito, Miguel só conseguiu gaguejar:
- Não... Não precisa dizer nada...
Totalmente reservada, Maurícia nunca havia cogitado discutir a própria vida sexual com o irmão. Como se pesasse o que causaria um dano menor, ela falou:
- Se for pra te deixar mais sossegado... Pra tu me deixar em paz e parar de uma vez por todas de me aborrecer...
Miguel parecia verdadeiramente apavorado:
- Eu... Não quero saber...
Mas Maurícia não teve pena. Foi cortante, quase agressiva:
- Existe uma coisa chamada internet... Que até naquele fim de mundo, como tu gosta de chamar, tem.
Parou e o olhou profundamente. Torcendo para que a informação fosse suficiente. O que menos queria era ter que entrar em detalhes:
- Sinto muito destruir a tua ilusão de que sou casta, pura, e vivo em total abstinência.
Visível nos olhos do irmão, choque, incredulidade, surpresa.  
Miguel não se conteve:
- Tu fica se masturbando na frente do computador?
Achou o tom de reprovação engraçado. Vindo logo dele, que antes de Leandro, desconhecia o nome de mais da metade da enorme quantidade de caras com quem fazia sexo... Um sorriso fatigado surgiu nos lábios de Maurícia:
- Eu não achava mesmo que tu fosse entender.
Como poderia? Era outro universo, que ele sequer sonhava  conceber.
- Não seria mais fácil... Fazer com alguém... De verdade?
Não se deu ao trabalho de tentar explicar:
- Pra ti, talvez.
Para Miguel, era inacreditável. Insistiu, parecendo um garotinho contrariado:
- Mas tu fez questão de chamar a Liv pra ir com a gente amanhã....
Maurícia assentiu:
- Ela é inteligente, foi bom conversar.
Miguel franziu a testa, abismado.  Maurícia encerrou com um bocejo:
- Tô cansada, vou deitar.
Beijou o irmão:
- Boa noite.
Ele respondeu, ainda atônito:
- Boa noite. – Só se recuperou quando ela deu o primeiro passo no corredor entre a sala e os quartos. Chamou: - Mau!
Maurícia parou e suspirou, antes de voltar:
- Uhn?
Com uma piscada absolutamente maliciosa, Miguel informou:
- Vou deixar o roteador ligado...
Um único som escapou dos lábios de Maurícia:
- Bah!
Antes de deixar o irmão rindo sozinho na sala.


postado originalmente em 16 de março de 2011 às 14:36