terça-feira, 3 de janeiro de 2012

CAPÍTULO QUATRO


- Preciso de um banho.
Não estava mais molhada, graças ao calor – insuportável para Maurícia. Para Liv, apenas normal.
- Vai lá.
Depois de deixar a bolsa em cima do móvel mais próximo da porta, Liv largou-se no sofá, deixando nítido o quanto era íntima da casa. Ainda assim, Maurícia perguntou:
- Quer tomar alguma coisa? Quem sabe comer algo?
A primeira reação de Liv foi fazer que não com a cabeça. Um segundo depois, mudou de idéia:
- Pensando melhor... Preciso de uma cerveja. Mas deixa que eu pego. Vai se livrar dessa roupa, deve estar grudando.
Não tentou se desculpar outra vez por ter derramado a bebida nela, intuindo que não era o que Maurícia desejava.
Não poderia estar mais certa. Com um sorriso aliviado, Maurícia a fez sentar-se de novo:
- Eu pego. – antes insistiu: - Tem certeza que não quer comer nada?
Liv voltou a recusar, e Maurícia sacudiu os ombros, resignada, antes de desaparecer cozinha a dentro.
Voltou com uma latinha de cerveja dentro de uma “camisinha” de isopor, uma tulipa, e um descanso de copos.
Liv não teve como deixar de rir:
- Pelo visto, o Leandro já te botou na linha, né?
Maiores explicações eram desnecessárias. Leandro era obcecado com a ordem da casa, todo mundo sabia.
- Manchar um desses móveis... Bah!
Riram juntas. Por diferentes motivos. Maurícia da “frescura” do cunhado. Liv por que...
- Desculpa... É que acho esse “bah!” de vocês tão engraçadinho... 

Maurícia a fitou, muito séria. Deixando Liv cheia de vergonha, arrependimento e culpa: 
- Desculpa... Eu não queria... Que impressão horrível você deve estar tendo de mim... Ai, me desculpa...
Foi a vez de Maurícia rir:
- Tudo bem. Fica tranquila. – piscou para ela, de um jeito descontraído que Liv absolutamente não esperava: - Só tô implicando contigo. – e completou: - Tu fica bem aí?
Bastante desconcertada, Liv respondeu um simples:
- Sim.
Maurícia ainda avisou:
- Já volto.
Antes de desaparecer no corredor que levava aos quartos.

***

Tentando distrair a mente que, sozinha e com o auxílio da cerveja, voltava perigosamente a pensamentos que preferia evitar, Liv acabou ligando a enorme TV. Não soube dizer quanto tempo ficou daquele jeito, mudando os canais a cabo incessantemente, sem que nada a interessassse.
Surpreendeu-se quando Maurícia retornou à sala.
- Bah! Que calor do inferno!
Dessa vez, Liv não riu da interjeição gauchesca. Estava mais preocupada em conter os próprios olhos. Sem resultado.  Involuntariamente, acabou examinando Maurícia de cima abaixo.
Completamente à vontade de camisetinha, bermuda, Havaianas, e os cabelos cacheados presos num coque seguro por um pauzinho atrás. Parecia... Bem diferente, na verdade.
Maurícia interpretou erroneamente a avaliação que sofreu. Olhando para si mesma, perguntou:
- Que foi? Tem alguma coisa errada?
Liv disfarçou magistralmente:
- Não. É que você tá tão praiana...
Riram juntas.
Sem saber ao certo porque - muito raro dar informações sobre si mesma, principalmente para uma quase desconhecida - Maurícia respondeu:
- Morei muito tempo em Floripa.
Liv retrucou sem nenhuma estranheza:
- É mesmo? Adoro Floripa!
Queria saber mais. Até pensou em perguntar: “Saiu de lá por quê?”. Mas não o fez.
Esperando que o assunto morresse, Maurícia sentou-se na poltrona ao lado do sofá onde Liv estava. Só então percebeu a tv ligada. Aproveitou para desviar o tema da conversa definitivamente:
- O que tu tá vendo?
Sacudindo a cabeça numa negação inconsciente, Liv respondeu:
- Nada. Quer ver alguma coisa?
Estendeu o controle para Maurícia, que recusou:
- Não sou muito fã de tv.
Falou executando o que estava dizendo:
- Vou desligar então.
Um silêncio incômodo se instaurou. 
Liv tentou quebrá-lo com a única coisa que lhe ocorreu:
- Quer ligar o som?
A primeira palavra que veio à cabeça de Maurícia foi: “Não!”.
Depois de três dias na casa do irmão, sabia que o tipo de música que ela gostava e o tipo que Leandro e Miguel escutavam não era exatamente... O mesmo.
Mas a expressão ansiosa, quase suplicante de Liv a fez dizer:
- Por mim, tudo bem.
Parada na frente da enorme pilha de CDs e DVDs, Liv foi gentil:
- Tem alguma preferência?
Maurícia mentiu:
- Não. Pode escolher.
Liv deu de ombros, e optou pela maneira mais fácil de resolver o dilema:
- Bom... Vamos ouvir o que já tá dentro do aparelho. - Reconheceu imediatamente a música que invadiu a sala com tudo: “Oh! Darling” (Across the Universe Soundtrack).
Sacudindo a cabeça no ritmo da música, Liv comentou rindo:
– É tão a cara deles, né?
Maurícia limitou-se a um indefinível:
- É.
Tentou disfarçar a própria intolerância a releituras de clássicos. Mas Liv percebeu:
- Quer que eu mude?
O pensamento de Maurícia foi ligeiro: “Ela parece estar gostando da música que... Realmente, não é nada má.”
- Não.
Liv insistiu, ainda sem estar convencida:
- Mesmo? Não prefere que eu desligue?
A mente de Maurícia operou de novo rapidamente: “Voltar ao silêncio? Capaz!”
A firmeza foi plena:
- Beatles são Beatles. Deixa.
Liv voltou a sentar na poltrona:
- Ok.
Não só para puxar conversa. Maurícia realmente sentiu vontade de saber:
- Conhece meu irmão há muito tempo?
Despejando o resto do conteúdo da latinha na tulipa, Liv esclareceu:
- Uns três anos. Desde que ele começou a ficar com o Le. – bebeu um gole da cerveja antes de prosseguir: - Conheço o Le desde os tempos de faculdade. Eles foram feitos um pro outro, né?
Maurícia riu:
- Sou suspeita. Adoro o Leandro. E o mano...
Deixou a frase em suspenso. Liv aquiesceu com a cabeça, num entendimento pleno. Deixou escapar sem querer:
- Deve ser estranho...
Fazendo Maurícia rir outra vez:
- O que?
Levantou, com a latinha na mão:
- Ter um irmão gêmeo.
Maurícia ficou de pé também:
- Deve ser estranho não ter.
Riram juntas.
Antes que pudesse protestar, Maurícia tirou a latinha da mão dela e sumiu cozinha adentro.
Liv então sentou no sofá e recostou-se, resignada a ser servida novamente. O tempo passou sem que percebesse. A música mudou: Something” (Across the Universe Soundtrack). E com ela, toda a atmosfera.
O som, o tom, a letra... A própria solidão de meses. Sugaram qualquer tipo de defesa. Impossível se dominar.  Pensou em Juliana. Nas noites adormecendo abraçadas, de conchinha. Nas manhãs acordando juntas. O amor feito como se nada mais existisse... Cafés da manhã na cama, banhos, passeios, viagens, beijos... Foi obrigada a confessar para si mesma: apesar de tudo, ainda queria... Não só o presente, mas o futuro que haviam sonhado e planejado juntas. Que realmente fosse para sempre.
Teve medo. De ficar presa naquele tormento. Desejando, absolutamente sozinha, algo que nunca conseguiria ter. Dor pungente que desceu em avalanche, devastando-a por completo.
Ainda estava prostrada, imersa no próprio desespero, quando Maurícia retornou, com uma latinha de cerveja na mão e um prato de petiscos na outra.
Assustou-se quando a viu daquele jeito:
- Que aconteceu?
Liv levantou a cabeça lentamente. Bastou os olhos marejados encontrarem os dela para que os de safira compreendessem.
Sem dizer mais nada, Maurícia depositou as coisas que segurava na mesa e desligou o CD. Liv levantou:
- Eu... Vou indo...
Apesar de categoricamente impedida:
- Senta aí, guria. Deixa de besteira!
Discordou com rudeza:
- Já dei vexame suficiente. Chega!
Maurícia postou-se na frente dela:
- Não vou te deixar sair por aí desse jeito. - Os olhares se conectaram de novo. O tom foi muito mais suave: - Te acalma primeiro.
Continuaram se fitando, num embate convergente.  Liv desviou os olhos rapidamente:
- Preciso de ar.
Caminhou até a varanda em largas passadas. Maurícia foi atrás, e debruçou ao lado dela no parapeito. Admiraram a vista em silêncio, durante um longo tempo.
Até Maurícia suspirar:
- Que bom esse vento!
Sem olhar para ela, Liv assentiu com a cabeça.
Foi num impulso. As palavras saíram antes que Maurícia pudesse contê-las:
- É a tua primeira separação?
Um suspiro de exaustão evidente antecedeu:
- Não. É a terceira. – A reação de Maurícia não poderia ser mais autêntica. Soltou um assobio. Liv não soube dizer se de admiração ou surpresa. Nem se preocupou em decifrar. Possuía uma angústia mais urgente: – Deveria ser mais fácil? Não sei... Exatamente por eu já ter levado muitas outras rasteiras, por não ser a primeira vez que desejei envelhecer com alguém... Essa sensação de que... A errada sou eu, que... Falhei, mais uma vez. Parece pior, muito pior. Um pesadelo.
O olhar azul virou-se pensativo para frente:
- Talvez seja. E um dia tu acorde e perceba que a verdadeira dor é não saber lidar com a própria perda. – antes que Liv pudesse dizer qualquer coisa, completou: - Falar é fácil, eu sei.
Um barulho vindo da porta da rua chamou a atenção das duas.
Olharam para trás juntas, e viram... Miguel e Leandro entrando no apartamento. Absolutamente felizes, rindo e se agarrando, aos beijos.


postado originalmente em 09 de março de 2011 às 14:38 







Um comentário:

  1. ren-blackstones disse...

    ah... qro mais =x
    ◄ Responder Comentário 9 de março de 2011 15:27
    Lilo Oliveira disse...

    a cada leitura me encanto mais...e a ansiedade pelo capítulo próximo só faz crescer.

    Beijão!
    ◄ Responder Comentário 9 de março de 2011 16:47
    anna disse...

    nossa...
    mto bom esse texto!
    estou gostando mto dessa estoria...
    ◄ Responder Comentário 9 de março de 2011 18:48
    LIKA disse...

    BOA NOITE .
    MUITO LINDO E TÃO RARO PODER SINTIR ALGO TÃO GOSTOSO COMO É LER ALGO SEU DA MANEIRA QUE VC COLOCA OS PERSONAGEM PERFEITO.
    BEIJOS ESPERANDO SEMPRE O PROXIMO.
    ◄ Responder Comentário 9 de março de 2011 19:21
    Rê disse...

    he he...

    Muito bom... kda x melhor.

    Vou ficar quietinha pra ver se a semana passa rapido.

    Bjs...


    ◄ Responder Comentário 9 de março de 2011 19:34
    Aninha aruen disse...

    ai que bonitinho essas duas...rsrsr bjs enormes Di!! to adorando a história!!
    ◄ Responder Comentário 9 de março de 2011 22:38
    »» Lya «« disse...

    Humn... Imaginando a cena, as duas na varanda lado a lado, , Miguel e Leandro entrando (rindo e felizes) e eles olham para elas...

    Ah... Queroo mais!!!

    Di ler seus contos é muito bom, sempre deixa naquele pontinho de quero mais... Esperando (já) ansiosa a próxima quarta (ah! E vou cobrar o autógrafo no meu livro viu, rs... ja que vc disse que é "facin")

    Bjos!
    ◄ Responder Comentário 9 de março de 2011 23:24
    K. Ártemis disse...

    Um ótimo capítulo para o pós carnaval. AdOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOrei '-'

    Beijos no coração
    ◄ Responder Comentário 10 de março de 2011 14:41
    Suellen P. disse...

    Agora q comecei a ler a nova web Di...
    Está maravilhosa... continua!
    ◄ Responder Comentário 11 de março de 2011 01:38
    Chester Perdigão disse...

    Nossa...to amando!!! *-*

    obs: as musicas que vc coloca nos contos são perfeitas!!
    só perde para os seus contos! XD

    aaaah quero que chegue quarta logo!! *-*

    Bjs Di
    ◄ Responder Comentário 11 de março de 2011 21:56
    Escaminha disse...

    A intensidade mudou...as coisas estão mais suaves...curti!
    ◄ Responder Comentário 12 de março de 2011 09:24
    sandra disse...

    Di provavelmente sua vida é uma correria,mas uma vez por semana é uma tortura.Não rola de ser quarta e domingo,por exemplo??kkkkkkk...
    Super,hiper,mega bjo!!!
    ◄ Responder Comentário 13 de março de 2011 22:38

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